
Acho que ainda estou.
"A dúvida é o principio da sabedoria" - Aristóteles
“Jean Renoir’s predilection for running water has often been discussed. But this predilection was common to all the members of the French school (although Renoir gave it a very special dimension). In the French school, it is sometimes the river and its course[…] It is firstly because water is the most perfect environment in which movement can be extracted from the thing moves, or mobility from movement itself.” Deleuze, The Movement-Image, 77.
“But in this negation of cinematographic canons, in this destruction of the shot as the basic unit of screen narrative and of the screen itself as the basic unit of space, there remained an implicit acknowledgment of the “cinema” as a means of expression. Even as a mask, the screen remained a screen. Even in reversing its function Renoir had not destroyed it. The final step remained to be taken. In The River the screen no longer exists; there is nothing but reality. Not pictorial, not theatrical, not anti-expressionist, the screen simply disappears in favour of what it reveals.” Bazin, Jean Renoir, 118.
Heart of Darkness, Joseph Conrad
Eleanor Coppola filmou grande parte das cenas dos bastidores e disse que o clima e a selva tornaram a rodagem para Francis Ford Coppola num processo de análise do seu lado negro, isto acabou por influenciar a sua visão final do filme.


O terror na cara de Hutter é o contraponto perfeito da face pálida e medonha de Orlok. As sombras da sequência final são além de incríveis, pioneiras e o nascer do sol que se segue é o desfecho ideal da história e da luz que percorre todo o filme.


My Blueberry Nights
A câmara omnipresente que deambula entre o interior e o exterior, a luz, as cores, a simplicidade, tudo isto está presente neste filme de Kar Wai apesar de não ter lugar em Hong Kong. Porém, a continuidade não é a mesma, perde-se um pouco nas histórias que são inseridas a meio e que não são bem “cozidas” ao tecido principal, que nos volta a trazer do melhor cinema do Realizador chinês.
Un Chien Andalou
Muito difícil de caracterizar. O surrealismo presente na obra de Dali (co-argumentista) tem neste filme uma pequena amostra do seu equivalente no cinema. Buñuel consegue transportar o elemento do bizarro e do irracional para a frente da câmara enquanto manipula as imagens de forma superior. O plano das nuvens finas a passarem pela Lua é extraordinário tal como o resto dos 17 minutos do filme.


Assault on Precinct 13 (1976) - John Carpenter
Um dos grandes filmes dos anos 70. Um cerco invulgar a uma esquadra de policia prestes a fechar onde se refugia um homem perseguido por um gang à procura de vingança pela morte de um dos seus membros. Com uma atmosfera negra e sombria, é cru e conciso mas ao mesmo tempo poderoso. A música acrescenta ainda outra dimensão ao cinema de Carpenter e neste filme, em particular, é sublime.


Um retrato da Sicília, do seu povo, das tradições da região, até da sua reputação, tudo através das conversas de um homem e do enquadramento belíssimo de Straub e Huillet. Um preto e branco de grande contraste que nos mostra a Sicília, que aumenta o impacto dos grandes planos e que enfatiza a alternância entre o silêncio e o discurso empolgado. Sendo o meu primeiro filme destes realizadores, fiquei com enorme vontade de conhecer o resto da sua cinematografia.


A Woman under the Influence (1974) - John Cassavetes
Filme incrivelmente honesto e frontal, nada é romantizado ou estilizado. Uma mulher exausta da vida que leva torna-se cada vez mais diferente, aos olhos do marido e da família. As performances de Peter Falk e Gena Rowlands são impressionantes e juntamente com a câmara de Cassavetes causam por vezes um desconforto enorme, como se estivéssemos a invadir um universo muito próprio que nos causa estranheza e constrangimento. Um filme marcante.

A contenção das palavras também se estende à expressão dos actores, nada de over-acting, uma grande contenção expressiva que funciona como uma suspensão da acção que impulsiona ainda mais o carácter transcendente do filme.
Corrente de imagem,
de percepção,
desenvolvimento de partículas
de uma totalidade captada
ao sabor de um ideal imaginário.
Projecto de verdade
de uma posse intrínseca
de cada representante.
Relação intima
entre o pensamento
e a visão pessoal
da forma física
desse pensamento.
Sonho a concretizar
no inicio da próxima viagem
quando se finalizar
o ritual de iniciação necessário.
Recordo o serão antigo que sempre organizaste na pequena sala de chá. A liberdade visceral que era lavrada no soalho de madeira, agora velho, sem cor. Escondias a pele enrugada do teu braço esquerdo com uma gasta camisa de linho e caminhavas sobre as tuas mágoas com firmeza, mascarando, com mestria, qualquer desequilíbrio reprimido. Espantavas o pó com a tua grafonola secular propositadamente arrumada no armário cheio de cristais por estrear. Ao fim de metros e metros de conversas de ocasião, medias bem as palavras e sugerias o êxodo recolhendo ao mesmo tempo a porcelana do costume. Repetias as intenções de visitas eternamente esquecidas, num discurso polido que alteravas com facilidade conforme a insistência. Coravam-se os últimos adeus enquanto subias os degraus da entrada e te sentavas na cadeira de baloiço que mantinhas no alpendre à direita da porta. Finalmente, ofegante, abraçavas a ténue névoa e repousavas, entregavas-te ao frio do anoitecer até que a lua te viesse buscar ao fundo das tuas memórias e te encaminhasse para a cama. Deitada, por baixo dos lençóis de flanela e do cobertor de lã, contavas as estrelas na janela enquanto o breu da noite te adormecia o pensamento até um novo dia.
A monotonia dos objectos que se acomodam no velho plano visual lembram outros estados semi-vegetativos em que me encontrei. Barba por fazer, longas dissertações durante um sono profundo e cansado, repouso esgotado de qualquer réstia de força mental. Começo sempre uma reabilitação mas parece que nunca cai a noite, sinto que são sempre duas da tarde, um calor de morte e qualquer coisa hipnótica na televisão.